Cadeirante surfa?

Foto: Instagram @fkizu


Tempo de leitura: 10 minutos
Escrito por Guilherme Rocha
guilherme@cavenaghi.com.br
@guigo.rocha


Dia 09 de fevereiro foi comemorado o Dia do Surfe e achamos que seria legal usar essa data para ser tema do primeiro assunto do nosso Blog: Como os cadeirantes e as pessoas com deficiência podem praticar esse esporte?

A cada ano que passa, o surfe tem se tornado cada vez mais popular. As conquistas de Gabriel Medina (2014, 2018), Adriano de Souza (2015) e a última de Ítalo Ferreira (2019), além da “tempestade brasileira” que junta vários outros atletas de peso, fazem o esporte crescer e tornar o Brasil uma fábrica de (excelentes) surfistas. Além disso, a modalidade tornou-se oficial nos Jogos Olímpicos de verão, que terá início no dia 24 de julho na cidade de Tóquio (Japão), o que aumenta ainda mais as chances brasileiras de medalhas na competição.

Mas, existe a possibilidade das pessoas com deficiência surfarem? Felizmente a resposta é SIM e por isso, vamos pegar essa onda e falar sobre o surfe adaptado: Onde praticar? Quais eventos trazem o contato com esse esporte? Quais foram os pioneiros da modalidade?

Prepare a sua parafina e sua playlist surf music para ler e curtir a matéria. E lembre-se: curta, comente e compartilhe esse post!


1. Escola Radical de Surfe Adaptado

Em janeiro de 2020, foi inaugurada a primeira escola pública de surfe adaptado (do mundo) para pessoas com deficiência, localizada na praia do Gonzaga (Posto 3) em Santos, litoral de São Paulo.  Através da iniciativa público privada, a escola foi criada a partir da renomada Escola Radical de Surf, que atende aproximadamente 500 pessoas, dentre elas, 120 com mais de 50 anos. Porém, não tinha estrutura para receber os alunos com alguma deficiência. “Agora com um local pensado para essas pessoas, com profissionais dedicados exclusivamente, elas terão ao menos uma aula por semana” afirma Cisco Araña, idealizador do projeto em entrevista para o portal Waves (http://www.waves.com.br/variedades/novidade/santos-inaugura-escola/).

Hoje, a escola conta com 80 alunos inscritos (turma fechada) que desde o dia 6 de janeiro de 2020, estão fazendo as aulas e seguirão pelas próximas semanas, com acompanhamento de seis professores, um terapeuta e um coordenador. Durante as aulas, os pais podem entrar no mar junto com os alunos, o que gera um ambiente ainda mais familiar. Outro ponto importante: nos dias onde as condições meteorológicas não permitem a “caída no mar”, as aulas são transferidas para o espaço multifuncional, mantendo os alunos em atividade.

Thiago Belém, um dos alunos da escola. Foto: Divulgação.

As inscrições para a segunda turma – que iniciará em meados de março – já estão abertas e podem ser feitas no local gratuitamente. O interessado (ou responsável) precisa ter em mãos um laudo médico e um atestado para a prática esportiva, um comprovante de residência além daquela foto 3×4 para a carterinha! As aulas e o funcionamento da escola são de terça a sexta, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Mais informações através do telefone (13) 3251-9838.


2. Felipe Kizu, o nosso tricampeão mundial!

13 anos atrás, quando tinha 18 anos, Felipe sofreu uma queda e tornou-se paraplégico (T11, T12 e L1). A lesão medular transformou sua vida e intensificou ainda mais a paixão pelo esporte outdoor, principalmente sobre pranchas. Descobriu o caiaque surfe, reaprendeu a surfar e começou a praticar diariamente. Evoluiu para o waveski, começou a competir profissionalmente e correr campeonatos, onde se tornou o primeiro atleta campeão mundial (2015) no torneio organizado pela International Surfing Assotiation, na categoria AS3 Upright (surfe sentado em waveski para PCD nos membros inferiores). Depois disso, Kizu trouxe mais duas medalhas de ouro (2016 e 2018). Para seguir o Kizu no Instagram, busque @fkizu!

Fotos: Instagram @fkizu


3. O campeonato mundial de surfe adaptado

Entre os dias 11 e 15 de março de 2020, vai rolar o AmpSurf ISA World ParaSurfing Championship, organizado pela ISA – International Surfing Association, em La Jolla, Califórnia (EUA). Em sua 5ª edição, a expectativa dos organizadores é de que esse campeonato reúna grandes nomes do surfe adaptado mundial para um show de manobras radicais, superação e inclusão.

“A ISA está orgulhosa em promover esse campeonato pela quinta vez. O crescimento e a visibilidade do evento impulsionaram um movimento global em prol do surf adaptado, criando novas oportunidades para esses surfistas” comenta o argentino Fernando Aguerre, presidente da ISA, em uma entrevista para o Portal Waves (29/12/2019).

Em 2018, 120 atletas representando 24 países participaram da 4ª e última edição do campeonato, que rolou na mesma cidade (La Rojja, CA). Para saber mais sobre a ISA, acesse: http://www.waves.com.br/cobertura-especial/isa/isa2020-la-jolla-sedia-mundial/.

Confira abaixo os highlights da edição do AmpSurf em 2018:


3. Um pouco de história: Taiu Bueno e Alcino Neto, o ‘Pirata’

Dois nomes de peso e respeito na história do surfe nacional, com relevância e consideração na comunidade do surfe mundial, ligados pela cidade do Guarujá – litoral paulista – e também pela causa das pessoas com deficiência.


Taiu ficou tetraplégico aos 29 anos no mar em 1991, durante uma sessão na praia de Paúba, litoral norte de São Paulo. Tomou uma ‘vaca’ (termo usado para ‘cair da prancha’), bateu de cabeça num banco de areia e fraturou a coluna cervical (C4), fazendo com que ficasse completamente imobilizado do pescoço para baixo. Autor de dois livros – “Alma Guerreira” e “Alma Guerreira II – Na onda do espírito”, Taiu é casado com Diana e pai das gêmeas Mariana e Isabella.

Taiu e Diana, com as filhas Isabella e Mariana. Foto: Instagram @taiu_bueno

Em 2010, em parceria com os “brothers”, construiu a famosa “Jabiraca”, uma prancha adaptada que vem sendo melhorada até os dias de hoje. Sempre que pode, conta com os amigos Jorge Paccelli, Danilo “Mulinha”, Alexandre Cebola, Rodnei Costa e Sylvio Mancusi (imagem abaixo) para dropar e curtir a adrenalina de pegar ondas novamente.

Foto: Instagram @taiu_bueno


Alcino Neto, mais conhecido como Pirata, é o pioneiro do surfe adaptado e responsável pela evolução da modalidade no Brasil. Perdeu a perna esquerda aos 14 anos em um acidente de moto em 1986. Alguns anos depois, Pirata já estava dropando em Pipeline, meca do surfe mundial e um dos lugares mais difíceis e intensos de surfar, localizado no Havaí.

Foto: Instagram @alcinopirataoficial

Em 1996, fundou o Pirata Surf Club na praia de Pitangueiras, no Guarujá, onde dava aulas gratuitas de surfe adaptado para crianças e adultos, com deficiências intelectual e visual, além de amputados e paraplégicos. Também dava aulas para o público geral. Dentre os alunos do Pirata, destaca-se Adriano de Souza, o “Mineirinho”, campeão mundial em 2015. Além da escola, Pirata mantém o Espaço Histórico do Surfe, dedicado a preservar a história da modalidade no Brasil, contando com um acervo de objetos e equipamentos.

Fotos: Instagram @alcinopirataoficial

Em 2008, através do projeto “Surfing for All”, levou o surfe adaptado para um grupo de soldados – vítimas de amputação por bombas – em um centro de reabilitação em São Diego, Califórnia (EUA).

No circuito mundial, foi campeão em 2017 na 3ª edição do campeonato organizado pela ISA, na categoria AS2 – Stand 2 (surfe em pé ou de joelhos para PCD em membro inferior ou amputação acima do joelho).

Foto: Instagram @alcinopirataoficial


4. Adaptsurf e Onda BGF

Essas duas ONGs realizam um trabalho fundamental para inclusão das pessoas com deficiência através do surfe. O Onda BGF organiza um evento de inclusão social que ocorre duas vezes ao ano. Nesse evento, a praia de Bertioga – litoral paulista – fica tomada por centenas de pessoas com deficiência com um único intuito: se divertir e cair no mar! A ONG disponibiliza caiaques, canoas, catamarãs e pranchas de stand-up (tudo adaptado) para pessoas com qualquer tipo de deficiência poderem ter a verdadeira sensação de deslizar numa onda. A essência do evento é encontrar os amigos, curtir uma música boa e aproveitar um dia inteiro na praia!

“Nada disso seria possível sem as parcerias, muito menos sem os voluntários e amigos, que fazem tudo isso acontecer”, afirma Bruno Guazzelli Filho, criador do evento Onda BGF Praia Acessível em 2011. Em 2020, o evento tem sua 19° edição marcada para o dia 9 de maio e aguarda cerca de 400 pessoas com deficiência de diversos locais para muito surfe adaptado.

Fotos: Facebook Onda BGF Praia Acessível


Criada em 2007 no Rio de Janeiro, a Adaptsurf (associação sem fins lucrativos) foi fundada “para garantir igualdade de oportunidades e acesso ao lazer, esporte e cultura através do contato direto com a natureza, divulgando o surfe adaptado e lutando pela preservação e por melhorias na acessibilidade das praias” conforme descrição da organização. As aulas gratuitas acontecem aos finais de semana – sábado na praia da Barra (Posto 2) e aos domingos na praia do Leblon (Posto 11), sempre das 9h às 14h. Para marcar ainda mais, desde 2010 rola o Circuito Adaptsurf, uma competição onde os alunos mostram na água tudo o que aprenderam durante o ano e, para completar, lançaram o Guia Adaptsurf, que fala sobre acessibilidade nas praias no Rio de Janeiro e também sobre a qualidade das ondas para a prática do surfe adaptado.
Para mais informações, acesse: http://adaptsurf.org.br/.

Fotos: Facebook Adaptsurf


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Até a próxima 🙂
Guilherme Rocha
@guigo.rocha

3 comentários sobre “Cadeirante surfa?”

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